Pessoas com deficiência têm direito a relacionamentos que promovam independência e liberdade

Sem poder ver o rosto dele, não conseguia esquecer o encanto de sua voz, grave e mansa.  E a cada dia a troca de mensagens de áudio e ligações se tornava mais frequente.

Veio um pedido de namoro. Em sua declaração, ele contou que já vinha encontrando ela em seus sonhos. A moça, sozinha desde o fim de um relacionamento longo, acreditou que era o momento de se dar uma nova chance. Confessou que suas noites também andavam mais felizes e disse que sim, queria tentar.

A conversa também fluía com facilidade. Os dois Compartilhavam a mesma religião, gostavam de música e tinham parentes em comum. Havia atração mútua, apesar de o relacionamento ser mediado por telas que só um enxergava. Os encontros, porém, ficaram restritos aos sonhos, enquanto esperavam ansiosamente pela vacina.

Longas ligações diárias viraram rotina. Na verdade, eram mais do que isso, uma obrigação. Ele não aceitava atrasos. As primeiras brigas vieram quando ela estendeu conversas com sua tia e sua prima e demorou a chamá-lo. Ela se defendia. Quinze anos mais nova, dizia que ele não tinha idade para um ciúme tão infantil.

Discussão maior aconteceu quando ela, vaidosa, decidiu pintar as unhas de vermelho. Namorada não tem de ficar chamando atenção por aí, dizia ele. Por outro lado, na conversa a dois, queria que esquecesse qualquer reserva e exigia que desse detalhes que ela considerava indiscretos de sua depilação e outras intimidades.

Ela desejava ser independente. Contou que iria fazer aulas para aprender a andar na rua sozinha, um sonho de liberdade antigo, tantas vezes adiado por outras obrigações da vida, o vestibular, a faculdade, a preparação para um mestrado. Ele achou ruim, disse que era um assunto que deveriam conversar melhor, não a queria se expondo a perigos por aí. Foi ignorado e as aulas começaram contra sua vontade.

Ele parecia acreditar que, por não enxergar, ela precisava de alguém que controlasse todos os seus passos, para o seu próprio bem, claro.

Não lhe faltava disposição para cuidar de tudo. Dizia que queria dar comida em sua boca. Ela retrucava que isso não fazia o menor sentido, sabia muito bem se alimentar sozinha. Ele a chamou de orgulhosa e ameaçou, por castigo, amarrar suas mãos para trás para que aprendesse a não ser tão teimosa. Ela se apavorava. Logo as mãos, tão importantes para conhecer o mundo, para ler, para trabalhar?

Mesmo sabendo que algo não ia bem, ela seguia apaixonada e ignorava os conselhos de quem tentava mostrar que o relacionamento já não lhe fazia bem. A cada briga vinha o desejo de tentar novamente, renascia a esperança de que ele mudasse.

O casal se desfez em uma mensagem de WhatsApp. Ele se disse ferido pelas tantas vezes em que ela repeliu o que ele entendia por cuidado. A moça ouviu que precisaria aprender a controlar sua espontaneidade para poder ficar com ele.

Ela seguiu seu dia normalmente. Doeu, mas, quando ele pediu para voltar, negou.

Concluímos que, em meio a tantos males que a pandemia trouxe aos nossos dias, ao menos ela impediu que um relacionamento que ia mal à distância se tornasse ainda pior quando acabassem as restrições para encontros. Ele insistia que viajassem juntos. No começo, ela, que adora conhecer o mundo, gostou da ideia. Após o fim do namoro, viu que teria sido uma insensatez. Como uma moça que não enxerga poderia se defender caso o ciúme e o desejo de controle dele, que já assustava há quilômetros de distância, se transformassem em agressividade quando estivessem juntos?

Fiz que ela me prometesse que só buscaria um companheiro que sonhasse com seu crescimento, que a fizesse querer ir cada vez mais longe, que desejasse que ela pudesse brilhar cada vez mais, como merece. Acima de tudo, disse que jamais, por ter uma limitação visual, duvidasse de suas chances de conhecer alguém legal e enxergasse o príncipe encantado em qualquer um por ter demonstrado interesse por ela. Diga-se de passagem, a moça em questão é belíssima e não há razão para que tenha qualquer dificuldade de encontrar pretendentes.

Nós que temos uma deficiência não queremos nada muito diferente de todos os demais. Pode ser que, além do antiquado gesto de abrir a porta do carro, seja importante que alguém nos ofereça um cotovelo para que andemos lado a lado. É verdade que será preciso um cuidado ou outro a mais. Mas Não se deve dizer o que devemos ou não fazer e nos sufocar com um controle disfarçada de carinho. Quem se relaciona com uma pessoa com deficiência não vira herói ou santo por isso, apenas está junto de alguém com muitas potencialidades e algumas diferenças que chamam um pouco mais atenção.

Agora a moça encontrou um rapaz gentil, também com deficiência visual,  em suas aulas de orientação e mobilidade, na qual aprendem a andar com bengala em diferentes espaços com segurança. Também se conhecem só pela internet. Conversam diariamente. Ela conta metodicamente o que fez em seu dia, mas agora não é para prestar contas, e sim para compartilhar cada pequena alegria que teve desde a última vez que estiveram juntos, mesmo que virtualmente.

Já falaram sobre o futuro. Machucada, ela pediu tempo para tomar qualquer decisão. Ele disse que valia a pena esperar por alguém tão especial.

Meu palpite é que em breve haverá novas histórias para contar, muito mais luminosas da próxima vez.