“É preciso muita meditação pra acalmar essa mente que não para quieta”, diz a artista, que circula entre música, teatro, literatura, dança e circo. Ela conta que novas ideias estão aparecendo o tempo todo e vão ficando guardadas para serem trabalhadas depois.
O livro Lauren, que ela publicou em 2018, por exemplo, teve os principais trechos do roteiro concebidos no caminho entre Volta Redonda, onde morava, e São Paulo, viagem que fazia três vezes por semana para participar de ensaios do Teatro Cego, companhia que faz apresentações no escuro.
A quarentena a fez economizar o tempo que gastava na estrada para suas apresentações musicais e acabou permitindo acelerar a produção. No último ano, Sara Aprendeu a dar aulas online, a editar músicas, a se acompanhar cantando ao piano e montou um estúdio em casa. Para 2021, a meta é lançar um livro que está pronto, chamado “Enquanto Amanhecemos”, finalizar um disco e terminar de escrever um musical para ela própria atuar e cantar junto a atores com e sem deficiência.
Para abril, Sara fará a apresentação “Mania de Você”, baseada no repertório de Rita Lee. A data e local, que já foram alterados em março, dependerão da situação da pandemia e deverão ser avisados em suas redes sociais. O convite veio da produtora Jaque Winter, que sugeriu a apresentação com banda só de músicos cegos. O grupo de Sara é formado por Luiz Otávio na Guitarra, Vanderson Pereira no teclado, Jonas Santiago no baixo e Jhonny Capler na guitarra.
Sara diz que a oportunidade de tocar com amigos antigos e com quem tem sintonia foi o que mais a interessou na formação do grupo. A ideia tem funcionado e ela já pensa em fazer mais projetos com a mesma banda. “Eu acredito em inclusão, em mistura de pessoas com e sem deficiência. Mas estou neste grupo porque amo esses meninos e amamos a arte um do outro.”
Foi do contato com amigos que não enxergam, presentes em sua vida desde muito cedo, que Sara encontrou o caminho para sua reabilitação após o que ela chama, divertida, de “apagão”, há 11 anos. Ela nasceu com baixa visão e, apesar de enxergar cerca de 5% do que a maioria das pessoas veem, desenhava, tirava fotos. “Quando você tem baixa visão, a funcionalidade é muito maior do que a medida médica mostra. Mesmo já enxergando pouco, foi uma perda significativa e vivenciei um período de luto”, diz.
Enquanto aprendia a lidar com a nova condição, era comum receber ligações e convites de amigos querendo dar apoio e mostrar novas possibilidades. “Saia com o Luiz Otávio, que hoje é da minha banda, sozinha. Eu morria de medo. Éramos só nós dois, sem enxergar nada e ele me guiando. Isso me ensinou sobre coragem, desbravar as ruas.”
Adaptada ao blecaute e fazendo ressalvas por receio de não generalizar sua experiência para os demais cegos, ela diz que a perda visual melhorou sua percepção musical e afinação. Também aumentou seu interesse por desenvolver mais a intuição. “A visão se apagando, no meu caso, abriu outras percepções, sim. Mas não é uma regra. Isso tem a ver com a busca de cada ser humano, não com a cegueira”, afirma.
Um desafio que persiste, porém, é conseguir se conectar com o público durante os shows sem enxergar a reação dele. Estou aprendendo a encontrar outras conexões, a manter a atenção da plateia sem ver se ela está atenta em mim. É uma pesquisa artística e energética, de tentar me conectar de forma sutil, intuitiva”, explica.
Sara considera que seu interesse por música e livros vem de família, apesar de não haver profissionais do ramo entre os parentes. O pai dela e seus 11 irmãos sempre foram muito musicais, cantavam juntos, tocavam instrumentos e compunham. Já o gosto por contar histórias foi herança da avó materna, que a entretinha com elas quando pequena. “Eu mal sabia falar, inventava histórias da minha cabeça. Aos 12 anos, quando tive minha inclusão digital e passei a usar o computador, comecei a escrever sem parar”, conta.
O primeiro disco, “Faz Sempre Sol”, foi lançado por ela e o pai, Sérgio, em 2012. Três anos depois saiu Invisível, primeiro álbum para adultos. O mais recente, “Tudo Que Me Faz Vibrar”, de 2018, vai do pop ao samba, incluindo também gêneros como reggae, rock e música romântica. As letras do repertório de Sara tendem a revelar o lado luminoso e corajoso da vida e da artista, com versos como “Venha o abismo e a gente vai voar”, “Eu não sei estar na vida sem me enredar” e Cada um traz suas cores, cada um é um pincel”.
A estreia em romance aconteceu em 2016, com “E Não se Esqueçam de Regar os Girassóis”. O livro tem como protagonista uma jovem que tem baixa visão e, logo nos primeiros capítulos, passa a não enxergar nada e precisa passar por processo de reabilitação semelhante ao da autora. Seu aprendizado é apoiado por Emanuel, jovem com deficiência física e passado misterioso por quem ela logo se apaixona. Quem lê se familiariza com muitas experiências da vida sem a visão. Giovanna, protagonista da história, conhece cenários a partir das descrições feitas pelos amigos e está sempre se orientando a partir de sons, cheiros e até do deslizar dos pés pelo chão.
Sara diz que tinha dúvidas sobre se deveria ou não publicar seus textos. Formou um grupo com dez pessoas para ler junto a obra em produção e avaliar o material. , Após o lançamento, a repercussão do trabalho, que proporcionou convites para dar palestras, a fez acreditar em seu potencial na área e a seguir se dedicando à literatura. Desde então, já há um livro de seus relatos de viagens internacionais, a maior parte delas relacionadas à música (“Vem Ver da Minha Janela”) e duas outras ficções (“Lauren e “o Pai de Lauren”).
Sara diz que o principal objetivo em sua carreira é buscar mais público para sua música e seus livros, Sara também sonha em ampliar sua atividade como atriz. Além de viabilizar o musical que está escrevendo, conta que gostaria de trabalhar com cinema e televisão. Sonha que sua música um dia a permita cantar junto de Jorge Vercilo e do artista sueco Ola Salo, duas de suas referências musicais.
Para Sara, um desafio dos artistas com deficiência para ampliar o alcance de seus trabalhos é mudar a forma paternalista como são vistos pela plateia e pela imprensa. Segundo ela, um sintoma dessa atitude é percebido nos programas de competição de cantores que estariam explorando cada vez mais a história e o drama da pessoa que está ali, em vez da música que ela tem a apresentar.
“Quero ser incluída em uma companhia de teatro pela minha atuação, ganhar espaço e estar em igualdade de competição pela minha qualidade musical, pelo apelo comercial que possa ter minha música, jamais por uma deficiência”, afirma.
Deixando de lado a atuação artística, um outro feito da Sara me chamou especial atenção. Ela doou sua voz para a criação de um software leitor de telas, lançado pela empresa F123 em 2019 com o nome de Letícia. Com isso, quem tem deficiência visual pode passar a usar o computador sendo guiado ouvindo ela ler todos os textos que aparecem na tela e também tudo o que é digitado. Para chegar neste resultado, foram 30 horas em estúdio lendo notícias de jornal e trechos de livros.
Pergunto a ela como, sem ser uma usuária assídua de braille, conseguiu ler com fluência em voz alta por tanto tempo? Parece algo bobo, mas A opção, ouvir o leitor de tela em um fone e tentar repetir o que ele diz logo em seguida não é uma tarefa trivial. Quando eu tento, principalmente para editar em conjunto com colegas algum texto, vai uma frase por vez, e bem vacilante, quase incompreensível.
Sara me explica que criou uma técnica para fazer exatamente isso, batizada de leitura sombreada. Hoje, retribui o carinho da avó dado na infância e passou a ler para ela. Vê possibilidade de que muitos estudantes e profissionais se beneficiem ao trabalhar essa habilidade incomum. Está formando grupos de interessados em aprender seu método.
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A Egyptian Blind Girls Chamber Orchestra Al Nour Wal Amal (Orquestra de Câmara Egípcia Luz e Esperança de meninas cegas) faz parte de uma organização dedicada à educação de meninas com deficiência visual fundada por voluntárias em 1954. Sete anos depois, a entidade passou a contar com um instituto de música.
O conjunto fez sua primeira apresentação internacional em Viena, em 1988, e já esteve em 26 países. Atualmente forma sua quarta geração de musicistas.
As participantes da orquestra aprendem o repertório que apresentam a partir do sistema braille. Como não é possível tocar os instrumentos e fazer a leitura com as mãos ao mesmo tempo, todas as notas precisam ser memorizadas, o que não costuma acontecer nas orquestras formadas por músicos que enxergam, exceto no caso de solistas.
A regência do grupo fica a cargo de Mohamed Sad, único músico sem deficiência visual. Ele está à frente das apresentações desde 2015.
A relação entre as instrumentistas e o maestro também tem suas peculiaridades, pois as participantes não teriam como ver seus gestos e movimentos com a batuta durante os concertos. Nos ensaios, o regente indica o andamento da música e a intensidade com a qual ela deve ser tocada com sons percussivos. Suas instruções são decoradas pelas musicistas para serem seguidas no palco.
Neste ano, a orquestra precisou interromper suas atividades durante cinco meses em razão da pandemia de Covid-19. Segundo a imprensa egípcia , as participantes não puderam treinar com seus instrumentos no período de distanciamento social mais rígido, pois eles ficam na associação. Após três semanas de ensaios, o retorno aconteceu em 20 de setembro, em concerto realizado na cidade natal do conjunto. Os ensaios foram feitos em grupos menores e com cuidados para evitar contágio pela doença.
O evento deste domingo terá mediação da pianista e pesquisadora Fabiana Bonilha, que tem deficiência visual e já apareceu neste blog. Participa também Luiz Amorim, professor de teoria musical e de prática de conjunto no Projeto Música Tátil, de Curitiba, idealizado por ele, que tem baixa visão.
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